Brasil tem 3,4 milhões de hectares em restauração, um terço da meta do Planaveg
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Brasil tem 3,4 milhões de hectares em restauração, um terço da meta do Planaveg

Autor: Mariana Oliveira, Antonio Couto Jr, Viviane Santos, Gabriella Maduã e Bruno Calixto

23/06/2026

A restauração de paisagens e florestas é uma das soluções baseadas na natureza reconhecidas pelo IPCC para enfrentar a crise climática. Ela ajuda a retirar carbono da atmosfera, aumenta a resiliência às secas e enchentes, reduz riscos de desastres e torna os sistemas produtivos agrícolas mais eficientes e menos vulneráveis. Restaurar é, ao mesmo tempo, uma agenda de clima, biodiversidade, água, desenvolvimento econômico e justiça social.

No Brasil, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) é o principal instrumento de implementação da Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg) e prevê a meta de restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Essa meta está conectada a outros compromissos do país, como a NDC climática, as metas de biodiversidade e os esforços de combate à desertificação, e dialoga com políticas setoriais de controle de desmatamento, bioeconomia e conversão de pastagens degradadas.  

Apesar de importantes iniciativas de mapeamento e monitoramento da mudança no uso da terra – incluindo sistemas de referência, como o Prodes, dados de vegetação secundária e plataformas da sociedade civil como MapBiomas, GFW e o Observatório da Restauração –, de uma perspectiva de política pública ainda não se tinha a informação de quanto dos 12 milhões já estão em recuperação. Esse cenário muda a partir da COP30, em Belém (PA), quando o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) apresentou a primeira avaliação oficial do quanto o país já avançou em direção à meta do Planaveg.

Segundo o Ministério, há atualmente no Brasil 3,4 milhões de hectares em processo de restauração, representando cerca de 28% do total da meta, ou praticamente um terço dos 12 milhões de hectares. Mas como o MMA chegou a esses números?

Entendendo os 3,4 milhões  

Os resultados apresentados pelo governo fazem parte do primeiro ciclo de reporte do Sistema Nacional de Reporte e Monitoramento da Recuperação da Vegetação Nativa. A metodologia da sistematização foi construída coletivamente, com amplo debate e aprovação na Comissão Nacional para Recuperação da Vegetação Nativa (Conaveg), colegiado responsável pela implementação do Planaveg no país. O mapeamento foi desenvolvido em parceria com a FAO e com a União pela Restauração, que inclui o WRI Brasil, TNC, WWF-Brasil, e CI Brasil e integra experiências de diversos projetos e redes de restauração.

A metodologia considera duas principais categorias: áreas de projetos de restauração registradas em sistemas administrativos (como termos de compromisso, acordos e projetos acompanhados pelo poder público) e áreas com floresta em processo de regeneração natural legalmente protegidas, como terras indígenas, unidades de conservação e áreas protegidas pelo Código Florestal.

O poder da natureza e do esforço coletivo

Um ponto que chama a atenção nos resultados é o importante papel que regeneração natural representa.

Áreas em regeneração natural, também chamadas de vegetação secundária, são locais onde houve desmatamento ou degradação no passado e que, quando se retira ou reduz o fator de degradação, a floresta volta a se recuperar sozinha.

Mais de 1,7 milhão de hectares dos 3,4 milhões em restauração correspondem a vegetação secundária em áreas protegidas, como unidades de conservação e terras indígenas. Em outras palavras, uma parte importante do avanço rumo à meta se deve ao fato de que a natureza está trabalhando a nosso favor, sobretudo onde há proteção territorial e redução de pressões.

Para que as áreas em regeneração natural possam ser contabilizadas na meta, é fundamental que exista uma ação clara de proteção. Essa intencionalidade aumenta de forma significativa as chances de que essas áreas que estão naturalmente se recuperando se mantenham no tempo e evoluam para um estágio mais maduro de vegetação.

Isso não significa, porém, que essas áreas estejam automaticamente garantidas. Até mesmo as áreas protegidas estão sujeitas a processos de degradação e incêndios. Garantir a permanência dessas florestas em regeneração, cuidar de sua qualidade ecológica e assegurar que elas continuem prestando serviços ecossistêmicos, como regulação do clima, proteção do solo e da água, é tão importante quanto abrir novas áreas de restauração.

O potencial da regeneração natural em áreas privadas também é gigante, especialmente por conta da técnica da regeneração natural assistida. Com pequenas intervenções humanas, como cercamento, controle de fogo e manejo de espécies invasoras, uma área pode ser restaurada com grande custo-benefício, reduzindo despesas para produtores e governos e aumentando a escala da restauração.

Outro ponto de destaque nos resultados é a importância do esforço coletivo na restauração. A governança da restauração no Brasil é multiescalar e multissetorial: envolve a Conaveg, seus núcleos de articulação por bioma e câmaras técnicas temáticas, órgãos federais como ICMBio, Ibama, Serviço Florestal Brasileiro, ministérios setoriais, governos estaduais e municipais, coletivos de restauração, organizações da sociedade civil, universidades, povos indígenas, comunidades tradicionais, cooperativas e setor privado.

Restaurar é desenvolvimento: trabalho, renda e territórios mais resilientes

Os 3,4 milhões de hectares em processo de restauração ajudam a reforçar que restaurar é também uma agenda de desenvolvimento. Estudos mostram que ações de restauração podem gerar, em média, 0,42 empregos por hectare ao longo de todo o ciclo, mobilizando viveiros de mudas, redes de coleta de sementes, implantação e manejo de sistemas agroflorestais e serviços ambientais associados. Aplicando esse coeficiente ao volume já identificado de áreas em restauração no país, é possível estimar que centenas de milhares de empregos estejam sendo gerados ou mantidos por essa agenda, especialmente em territórios rurais, onde alternativas econômicas sustentáveis são fundamentais para fortalecer comunidades, reduzir vulnerabilidades e ampliar oportunidades de renda.

Esses empregos tendem a se concentrar justamente em territórios que mais precisam de alternativas econômicas: áreas rurais de menor renda, comunidades tradicionais, regiões afetadas por desmatamento e degradação. Ao combinar restauração com produção de alimentos, sistemas agroflorestais, manejo florestal sustentável e bioeconomia, é possível gerar renda, fortalecer a segurança alimentar e reduzir riscos associados à perda de resiliência das paisagens, como incêndios, enchentes e escassez hídrica.

O próprio Banco Nacional Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) conta com mais de R$ 1 bilhão de financiamento para restauração florestal apenas neste ano de 2025, fomentando organizações que trabalham para ações voltadas à recuperação, à manutenção e ao uso sustentável da vegetação nos biomas brasileiros.

Programas como o Florestas Produtivas, desenvolvido em parceria entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o MMA, ilustram esse caminho ao apoiar a agricultura familiar em modelos produtivos que conciliam restauração, sistemas agroflorestais, transição agroecológica e valorização da sociobiodiversidade. O fortalecimento de instrumentos como o PRONAF Florestas, com crédito de longo prazo e juros subsidiados para sistemas agroflorestais, é um passo fundamental para que mais agricultores e agricultoras possam aderir à restauração produtiva em escala.

Mais do que somar hectares, o desafio é construir uma escala que conte não só área restaurada, mas também número de famílias envolvidas, arranjos produtivos consolidados e redes locais de assistência técnica, extensão rural e pesquisa. Sem engajamento profundo de produtores rurais, comunidades locais e juventudes do campo, não haverá restauração duradoura.

Como chegar aos 12 milhões de hectares até 2030

Ainda há muito trabalho a ser feito para se garantir que os 12 milhões sejam restaurados até 2030. É preciso avançar, por exemplo, nas políticas econômicos para fortalecimento do setor, no aprimoramento e harmonização do arcabouço jurídico e na garantia da qualidade permanência das áreas, além de reduzir riscos, capacitar restauradores e avançar no monitoramento e garantias para restauração.

Um importante projeto para apoiar a implementação do Planaveg é o Restaura Biomas, que busca criar condições estruturais para destravar investimentos, desenvolver cadeias produtivas da restauração e ampliar os benefícios socioeconômicos para territórios e comunidades.

O Restaura Biomas é um projeto nacional aprovado no âmbito do GEF-8 (Global Environment Facility), concebido para acelerar a restauração ecológica em larga escala e fortalecer políticas públicas de conservação no Brasil. Coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e executado pelo WRI Brasil, em parceria com a União pela Restauração (CI-Brasil, The Nature Conservancy Brasil, WRI Brasil e WWF-Brasil) Ele estabelece uma articulação sem precedentes para recuperar vegetação nativa, aprimorar governança e ampliar o manejo sustentável em todos os seis biomas do país, e pode ser um acelerador da meta de restauração no Brasil.

Também é importante mobilizar recursos e destravar investimentos. Iniciativas como o Fundo Flora, lançado na COP30 pelo WRI Brasil e Sitawi, buscam mobilizar recursos para organizações que atuam na linha de frente da restauração.

Fomentando uma nova economia da restauração

Viabilizar a governança e mecanismos financeiros são estratégias necessárias para atingirmos os dois terços de hectares de restauração, de acordo com a meta do Planaveg. Quando bem articulados, esses dois componentes podem ajudar a criar um setor da restauração mais fortalecido e coeso.

Para isso, é necessário vermos o setor pela lente de uma nova economia da restauração, uma economia que articule governança, infraestrutura e capacidade técnica, assegurando que a mobilização de recursos alcance efetivamente quem atua na linha de frente de quem atua na floresta.